Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Faxina

Tenho um quarto inteiro para arrumar. Olho em volta e não sei por onde começo. Pelas tantas roupas que entopem meu guarda-roupa e que eu nunca uso? Posso imaginar enchendo uma grande caixa. E os sapatos? Os quebrados, os que dão calos insuportáveis e os que não consegui mesmo gostar. Uns ainda agüentam um conserto, outros precisam ir pro lixo e sobram alguns pra doar. Aquele chapéu do carnaval de Olinda, incensos passados da validade, rascunhos de impressão: lixo. Preciso colocar vários livros nos seus devidos lugares na estante, brincos de volta para a caixinha, organizar a pasta de textos e provas do semestre passado da faculdade. Ontem consegui gravar o DVD de backup das minhas fotos do computador antigo, que já está quase batendo as botas. Semana passada, fiz os das músicas. Falta só o dos textos. Queria pintar o quarto de azul. Um tom um pouquinho mais escuro que o clássico azul-bebê. Um quarto-mar. Não ando gostando da atual cor bege das minhas paredes. O quarto fica quente e também já estou abusada. Posso voltar a ligar minha fonte de água, enfim imprimir as fotos pra encher o mural (até agora só tem três fotos, um bilhete do meu pai me chamando de teimosa, dois cartões postais que Maurício me mandou de Salvador, meu horário de aulas e o santinho da missa de sétimo dia de Dudu, acho até que vou tirar o santinho e colocar na minha gaveta porque é muito triste sempre que olho e lembro). Meu quarto está uma bagunça. Na fileira de livros, metade arriou e ficou assim mesmo, ainda coloquei um hidratante para mãos em cima da pilha. Pelos menos, já achei minha salve-salve calculadora para as provas de estatística aplicada – estava numa bolsa que nunca uso. Amanhã estou pensando em aprender a surfar. Tenho certeza que depois que jogar fora esses lixos e pôr em ordem o recinto, as coisas hão de andar mais. Eu preciso, pessoas, porque a vida não está sendo nenhum pouco boazinha comigo. Faço piadas dos meus infortúnios, abro caminhos para estar mais perto do abraço que tenho vontade de dar, mas é horrible quando a esperança tira férias de surpresa.

Domingo, 10 de Maio de 2009

(é tudo piada)

Tudo azul
No céu desbotado
E alma lavada
Sem ter onde secar
Eu corro, eu berro
Nem dopante me dopa
A vida me endoida

(...)

Se eu vou pra casa
Vai faltando um pedaço
Se eu fico, eu venço
Eu ganho pelo cansaço
Dois olhos verdes
Da cor da fumaça
E o veneno da raça

(...)

Levando em frente
Um coração dependente
Viciado em amar errado
Crente que o que ele sente
É sagrado
E é tudo piada
E é tudo piada

(Cazuza e Frejat)

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Pouco antes, era blues. Naquele momento, era chuva. O quarto azul me fazia esquecer que estávamos em carnaval (ali parecia mais um bangalô que vi certa vez na praia dos carneiros, em feriado tranqüilo). Noite, seja longa. Chuva, não pare tão logo amanhecer (eu pedia em silêncio para que então nosso quarto de mar se ampliasse para dentro de nós).
Corpos de sal grosso, cama-enseada - a baía que não cortava a nossa distância.

Ê desassossego que tem tornado as noites mais longas. Peço calma e meu coração transborda inquietude. Peço serenidade, mas está tudo tão bagunçado, em andanças desordenadas, que o azul só existe em olhares alheios, em fotografias de lugares estranhos ao meu descompasso. Quando penso estar gerando bons movimentos, mirando em um ponto sensato, o universo me pega pelos pés, fico de ponta-cabeça e o sangue, mal circulado, deixa meu corpo gélido e minha mente em chamas. As farpas que me atacam não são para mim. Isso é fato claríssimo. Eles querem me empurrar num abismo que não é meu e me dar de presente uma dor que não é minha. E eu só quero levar meus dias em paz, no meu passo ritmado, nas diretrizes que tento estabelecer arduamente. Eles me sugam até o último fio de cabelo e, não satisfeitos, querem ser ditadores da minha opinião, para que seus caminhos tortos e mesquinhos possa se perpetuar. E eu não sei quem é mais cego entre nós todos. Tento me esquivar do possível caco arremessado em minha direção. Escapo, mas não ilesa. Mil cacos me ferem por dentro e meu alicerce parece entrar em decomposição. Busco loucamente a porta de saída. Tem de existir. Ponto.

Segunda-feira, 2 de Março de 2009

valsa brasileira

Você tão alma pronta para entrega e eu com tantas amarras. Você então me chamou pra dançar e conseguimos uma maciez rara nos passos. Você com medo de me invadir, eu com medo de permitir. Aceitei o beijo e eu que te explorei a boca. Você gostou do meu cheiro e eu das suas mãos, enquanto sua voz baixinha soprava uma valsa brasileira. Tive, sim, vontade de fugir, mas estava tudo tão bonito...

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

“que medo alegre o de te esperar”
clarice lispector

Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

E esses olhos, cor de minha cachaça preferida, a me fitar? Tão serenos. E esse sorriso cor de areia branca, de abrir caminhos em mim? Leveza de toque na perna, de mão na mão, de beijo na bochecha, de língua que espera. O silêncio bem aceito, o sentir que dá gosto, íris sempre a caçar as miudezas. De certo, ele gosta dos vazios como eu e quis carregar água na peneira também. Ele pára e olha o movimento que o vento faz nos meus cabelos, fica ali olhando, contando das suas andanças e eu, como sempre, flor aberta, respirando maresia, entardecendo: estamos sendo, diria ela que faz festa em minha estante de livros.

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

"E era isso o que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem."
(Clarice Lispector in Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres)



Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009



eu na praia de pipa-rn


Por fuga, consegui ter o mais movimentado dos verões. Só para me distrair, vi tanto o sol se pôr em lagoa, em mar, em fazendas nas estradas. Querendo esquecer os pesos, tomei muito banho de mar. E para não ser sozinha, corri para o abraço de primos, tias e avós. Senti o cheiro deles, virei noites fazendo bagunça no quarto, papariquei, fiquei mais na cozinha para aprender as raridades gastronômicas, para tentar fazer junto com o primo caçula que, com dez anos de idade, já sabe fazer molho branco, refogar macarrão, ganhar de mim no UNO... É abraço pra cá, você é linda pra lá, me enche de mimos e me orgulha com sua esperteza incomum. Até caminhar em areia fofa da praia, em noite de lua cheia, junto com a tia mais bonitona, só para eliminar as calorias de tanto caranguejo, peixe frito e rocambole de chocolate com recheio de morango em pedaços. Apostei corrida de caiaque com a prima mais traquina e hiperativa do mundo, na lagoa. Sai desbravando estradas apenas com minha irmã para fazer um roteiro só nosso, de muito descanso e dias de sol. Conversei por horas e horas com uma pessoa com raízes no mundo e ganhei brincos em forma de libélula, pulseirinhas e anéis e quis ficar perto e ser mais mar. E ainda teve sessões de filmes, todo mundo junto, apertado, em colchões na sala, como em outrora era tão mais comum acontecer e hoje tem gosto de nostalgia. Os gatos do meu avô (Felipe, Olga e Anita) pintaram o sete na casa de praia, tiraram a paciência do labrador Bruce enquanto este estava preso, enquanto minha miloca (a cadela mais carinhosa do mundo) jogava sua bolinha azul na piscina e vivenciava a maior das aventuras para tentar resgatar e eu me divertindo horrores com as peripécias dessas criaturas, quando não estava enchendo Dona Maria de beijos. Depois era hora de ver estrelas e pensar em tudo que é tão maior, só para não me sentir triste ao me lembrar daqueles dois (que dão tanto trabalho).

Sábado, 31 de Janeiro de 2009

Maré



auto retrato em baia formosa-rn



Mais uma vez
vem o mar
se dar
como imagem
Passagem
do árido à miragem

Sendo salgado
gelado
ou azul
Será só linguagem

Mais uma vez
vejo o mar
voltar
como imagem
Passagem
de átomo a paisagem

Estando emaranhado
verde azul
Será ondulado

Irado emaranhado
verde azul
Será ondulado

(Adriana Calcanhotto - Maré)

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Diferenças, medos e aceitação



Diz que me ama
Mas o que é que eu fiz
Porque há mais de uma semana
Você está de má vontade
Tudo o que eu digo parece bobagem
Apesar de achar que, em parte
O que você diz é verdade
Mas isso não é nenhum desastre
Pois nunca é tarde pra saber
Que não há nada errado em sermos diferentes
(Só somos diferentes).

[Nando Reis - Sortimento]


* * *

Vou tentar manter o coração aberto pra você,
Apesar dos outros,
Apesar dos medos,
Apesar dos monstros nos meus pesadelos

Vou tentar manter o coração aberto pra você,
Apesar dos trincos,
Apesar dos trancos,
Apesar dos dias repetidos que são tantos.

Eu vou tentar manter o coração aberto pra você.
Apesar da chuva,
Apesar da rua,
Apesar da hora,
Apesar dos pesares, das canções, dos lugares,
Apesar dos meus pensamentos, dos perigos, dos próximos momentos.

Eu de coração aberto pra você,
de coração aberto pra você.

[Aberto - Zélia Duncan e Edu Tedeschi]

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

mar de pôr do sol



Baía Formosa/RN - 08/01/09 - Foto de minha autoria



Tão logo o sol se pôs no porto,
entrei no mar.

Resquícios de luz
fizeram dele um alaranjado só,
num banho de me dourar: tão pérola.

Sozinha com meus pesos,
meus sais
meus tempos
- sou fênix marinha e meus descaminhos vicejam e me purificam
[ quando a água me acolhe.




Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Para a virada de ano...

"É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada."

Caeiro

______

Que nesse próximo tenhamos mais tempo para olhar com mais poesia as coisas ao nosso redor, que respiremos melhor, que cuidemos mais do nosso corpo. Mais tempo para viajar e descobrir esse mundão, mais tempo para os encontros gostosos com as pessoas queridas, para ler aqueles livros que empilhamos na estante. Mais tempo para que não optemos somente pelas coisas descartáveis, para que revelemos nossas fotos digitais, para arrumar nosso quarto, para comer uma comidinha caseira, para visitar nossos avós, para fazer a diferença e, principalmente, reavaliar nossas atitudes que influenciam negativamente na vida das outras pessoas. Acho que isso já resume um bocado das minhas expectativas e votos.

Terça-feira, 30 de Dezembro de 2008

Se eu não consigo te sentir, a distância é ocupada por um grande vácuo. Não sei ficar à mercê do acaso, dos encontros efêmeros e desastrados numa hora que nunca sabemos quando vai ser. Os ritos e a comunhão vão se desgastando por estarem a esmo.

Em tempo: o meu amor ainda caminha sobre frágeis trilhos de papel.

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

(em memória ao seu aniversário,
outras letras para marina)




da pele de sua poesia
emergem lavas vulcânicas
- o céu fica todo cor de carmim.
aqueço-me
em seus versos deLírios
e anuncio:
ela é a mulher-loba que uiva em palavras.





(Feliz aniversário, querida. Que os seus olhos nunca se fechem pra delicadeza do mundo...)

Domingo, 21 de Dezembro de 2008

(para marina e adélia)


sinto dor a cada linha que quebro
para fazer verso.
hei de me conformar:
a minha poesia reside na prosa
- verdade maior.




imagem: autoria desconhecida

Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

tão perto que tua mão no meu peito é minha,
tão perto que os teus olhos se fecham com o meu sono.

Neruda.

Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Onde alcançar o espaço no teu coditiano capaz de me aquecer? Você me vem de forma tão pesada, quase nem me olha no olho. Eu me pego a sempre tolerar seus sumiços, nesse duelo de bicudos, nesse vão que me parte ao meio. Onde você está por detrás de tantas roupagens e subsídios inúteis? Cadê meu herói para me preparar vitaminas de abacate e me carregar ao colo toda vez que eu adormecer no carro, no caminho de volta para casa? Que saudade dos passeios no parque que não fizemos, dos filmes que não vimos juntos, de todos os lugares do país que você visitou tantas vezes e nunca me levou contigo. Que saudades da tranqüilidade que não te era peculiar, do compasso ausente em nossos diálogos e do tempo que você não tinha para mim, para nós. Você sempre tão prestativo para os outros e tão azedo para mim, cego ou tão temeroso para as minhas lacunas. Tantas projeções, lamas desnecessárias, muros intransponíveis de silêncio. Que medo você tem de se aproximar, de pedir colo, de acalentar? Foge ofegante para não implorar ajuda e tem, em colos alheios, o carinho que necessita. Em colos sujos, enquanto você rejeita o que te é sagrado.

Segunda-feira, 1 de Dezembro de 2008

"Sorry if I hurt you, baby,
Sorry if I did
Sorry if I touched the place
Where your secrets are hid
But you meant more than everything,
And I could not pretend,
I ain't never gonna be the same again..."

(Bob Dylan - Never gonna be the same again)

Domingo, 30 de Novembro de 2008

A intimidade

Ao som de: Cat Power - Wild is the wind



Gosto quando a intimidade vem sorrateira, sem pedir licença, quando cai como luvas em minhas mãos ressecadas. O clichê faz sala para as palavras, mas eu pouco me importo se é piegas e tão dito pelas bocas mundo afora. Importa-me mais ser chamada pra deitar no teu peito e querer, querer também as pernas encaixadas e nossos pés com linguagem própria. E a gente se olha com timidez e a intimidade já está lá, sem muito tempo a perder, fazendo tanto por nós. Lava a louça antes que a gente se incomode, prepara sobremesas, o banho, economiza pratos, cerimônias, dizeres... A intimidade ri da dor de barriga imprevisível, do beijo quando descompassado, das gafes que nenhum cinéfilo perdoaria, da música brega que insiste em martelar na cabeça. Ri dos nossos olhares, das nossas inquietações, dos monstros que somos nós e não somos e não sabemos.